terça-feira, 8 de novembro de 2011

A reestruturação do Incra

08 de novembro de 2011 | 3h 06
O Estado de S.Paulo

São cada vez mais violentas as reações dos movimentos sociais ligados aos trabalhadores rurais, aliados históricos do PT, à condução da reforma agrária pelo governo Dilma e à maneira como vêm atuando o Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). E quanto mais violentas, mais parecem confirmar que o presidente do Incra, Celso Lacerda, está agindo como prometeu quando assumiu o cargo, no fim de março. Na ocasião, anunciou que sua gestão se basearia "nos padrões da iniciativa privada, com gastos cada vez menores e produtividade cada vez maior".

Na busca de maior eficiência, mais resultados e menos burocracia - objetivos que, segundo Lacerda, lhe foram determinados pela presidente Dilma Rousseff -, o Incra deverá passar por uma reformulação, da qual resultará a redução de seu poder e da sua esfera de ação e também das funções do Ministério do Desenvolvimento Agrário, como mostrou reportagem de Roldão Arruda publicada pelo Estado (2/11).

Não há, ainda, documentos públicos com as linhas gerais da reestruturação da área do governo responsável pela política de reforma agrária nem compromisso expresso das autoridades com as mudanças. Por isso, se as resistências dos movimentos sociais se tornarem estridentes demais, a ponto de criar um clima político desfavorável à reestruturação, ela poderá ser temporariamente suspensa. Mas, além das declarações da diretoria do Incra em favor de uma nova estrutura para o órgão e de uma nova gestão da política de assentamentos em terras cedidas pelo governo, também os números da execução da reforma agrária reforçam a avaliação de que, nesse aspecto, o governo Dilma está rompendo com seu antecessor.

Dados do Incra mostram que, nos dez primeiros meses de mandato, o governo Dilma criou menos assentamentos e assentou menos famílias do que os dois antecessores. Foram criados 35 assentamentos no atual governo, contra 135 nos dez primeiros meses do primeiro mandato de Lula e 156 em igual período de FHC. Mas, além disso, o número de famílias assentadas foi bem menor: 1.949, bem menos do que as 9.195 assentadas no início do governo Lula e as 23.391 no início do governo FHC.

Além disso, o governo Dilma rejeitou cerca de 90 processos de desapropriação de áreas para fins de reforma agrária. Nenhum decreto com esse teor foi assinado no atual governo. No de Lula, foram assinados em média 20 decretos por mês transferindo terras para o Incra.
Lacerda procurou minimizar a redução do ritmo de assentamentos no atual governo, argumentando que os principais programas do Incra são os destinados ao desenvolvimento dos assentamentos já criados.

Atualmente, o Incra tem grandes poderes e dispõe de muitos recursos para comprar terras, assentar famílias, construir residências para os assentados, abrir e manter estradas em áreas rurais, implantar agroindústrias, financiar programas educacionais, contratar e prestar assistência técnica. Como observou a reportagem citada, com tantos poderes o Incra é chamado de "Estado dentro do Estado".

A reforma em exame pelo governo resultará num órgão muito mais enxuto, com muito menos poderes, mas com tarefas mais específicas e, especialmente, mais eficiente. Programas ligados à área habitacional, por exemplo, deverão ser transferidos para o órgão federal especializado no assunto, que é a Caixa Econômica Federal.

Um ponto que certamente gerará polêmica é o que estabelece prazo para a execução da reforma agrária no País. Por ser uma de suas mais visíveis bandeiras, a reforma agrária é essencial para a sobrevivência de muitos grupos políticos ligados ao campo e vinculados ao PT.
Mas, se as mudanças forem, efetivamente, colocadas em prática, o Incra deixará de ser um foco de conflitos políticos e sociais e poderá se transformar num órgão técnico capaz de impulsionar a atividade produtiva nos assentamentos, com resultados muito mais positivos para os assentados e para o País.

From:  www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-reestruturacao-do-incra-,795936,0.htm

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Código Florestal no mundo da escassez

04 de novembro de 2011 | 3h 05
Washington Novaes, jornalista. - O Estado de S.Paulo

Aproxima-se a hora de votações decisivas no Senado do controvertido projeto de lei sobre um novo Código Florestal. E aumentam as preocupações, tantos são os pontos problemáticos que vêm sendo apontados por instituições respeitáveis como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Academia Brasileira de Ciência, o Ministério Público Federal, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Museu da Amazônia, os comitês de bacias hidrográficas e numerosas entidades que trabalham na área, entre elas o Instituto SocioAmbiental e a SOS Mata Atlântica.

Não faltam motivos para preocupações graves. Entre eles, a possibilidade de transferir licenciamentos ambientais para as esferas estadual e municipal, mais suscetíveis a pressões políticas e econômicas; a anistia para ocupações ilegais, até 2008, de áreas de proteção permanente (reconhecidas desde 1998 como crime ambiental); a redução de 30 para 15 metros das áreas obrigatórias de preservação às margens de rios com até 10 metros de largura (a proposta atinge mais de 50% da malha hídrica, segundo a SBPC); a isenção da obrigação de recompor a reserva legal desmatada em todas as propriedades com até 4 módulos fiscais (estas são cerca de 4,8 milhões num total de 5,2 milhões; em alguns lugares o módulo pode chegar a 400 hectares); a possibilidade de recompor com espécies exóticas, e não do próprio bioma desmatado; nova definição para "topo de morro" que pode reduzir em 90% o que é considerado área de preservação permanente.

São apenas alguns exemplos. Há muitos. Para que se tenha ideia da abrangência dos problemas: o professor Ennio Candotti (ex-presidente da SBPC), outros cientistas e o Museu da Amazônia lembram que naquele bioma há uma grande variedade de áreas úmidas, áreas alagadas, de diferentes qualidades (pretas, claras, brancas), baixios ao longo de igarapés, áreas úmidas de estuários etc.; cerca de 30% da Amazônia pode ser incluída entre as áreas úmidas e cada tipo exige uma regulamentação específica, não a regra proposta no projeto. No Pantanal, são 160 mil quilômetros quadrados.

Mas não bastassem todas essas questões, recentes portarias ministeriais (Estado, 29/10) e do Ministério do Meio Ambiente mudaram - para facilitar - os procedimentos obrigatórios para licenciamento de obras de infraestrutura e logística, com o argumento de que há 55 mil quilômetros de rodovias, 35 portos e 12 mil quilômetros de linhas de transmissão de energia sem licenciamento - como se o problema estivesse nos órgãos ambientais, e não nos empreendedores/construtores.

E tudo isso ocorre no momento em que as últimas estatísticas dizem que o desmatamento na Amazônia permanece em níveis inaceitáveis: em sete meses deste ano foram mais de 1.800 km2, número quase idêntico ao de igual período do ano passado (Folha de S.Paulo, 1.º/11). E no momento em que se reduz a área de vários parques nacionais na Amazônia para facilitar a construção de hidrelétricas questionáveis (já discutidas várias vezes neste espaço). Esquecendo a advertência do consagrado biólogo Thomas Lovejoy: o desmatamento no bioma já chegou a 18%; se for a 20%, poderá atingir o turning point irreversível, com consequências muito graves na temperatura e nos recursos hídricos, ali e estendidas para quase todo o País. É uma advertência reforçada por estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Escritório Meteorológico do Hadley Centre, da Grã-Bretanha. Já o professor Gerd Sparovek, da USP (Estado, 26/10), adverte: o passivo com o desmatamento no País já é de 870 mil km2.

E ainda se pode perguntar: mesmo admitindo a hipótese otimista de o Congresso rejeitar todas as mudanças indesejáveis - hipótese difícil, dado o desejo de grande parte dos congressistas de "agradar" ao eleitorado ruralista e a parte do amazônico (que vê no desmatamento oportunidade de empregos e renda) -, mudará o quadro, lembrando que o Ministério do Meio Ambiente (e, por decorrência, o Ibama) tem apenas cerca de 0,5% do Orçamento da União? Não esquecendo que o Ibama só tem conseguido receber cerca de 1% das multas que aplica a desmatadores.

Estamos numa encruzilhada histórica, reforçada pelo fato de a população do planeta ter chegado a 7 bilhões de pessoas e caminhar para pelo menos 9 bilhões neste século - o que exigirá o aumento da oferta de alimentos em 70%, quando o desperdício, hoje, nos países industrializados chega a um terço dos produtos postos à disposição; quando nas discussões do ano passado na Convenção da Diversidade Biológica se demonstrou que o mundo perda entre US$ 2,5 trilhões e US$ 4,5 trilhões anuais com a "destruição de ecossistemas vitais"; quando a "pegada ecológica" da humanidade, medida pela ONU, indica que estamos consumindo mais de 30% além do que a biosfera planetária pode repor.

Nesta hora, em que o até ex-ministro Delfim Netto, que admite nunca haver se preocupado antes com a questão, manifesta (no livro O que os Economistas Pensam da Sustentabilidade, de Ricardo Arnt) seu desassossego com a escassez de recursos naturais no mundo e a possibilidade de esgotamento, é preciso mudar nossas visões. Admitir que tudo terá de mudar - matrizes energética, de transportes, de construção, de urbanização, nível de uso de terra, água, minérios, tudo. Relembrar o que diz há décadas o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud): se todas as pessoas tiverem o nível de consumo do mundo industrializado, precisaremos de mais dois ou três planetas para supri-lo.

A atual crise econômico-financeira está mostrando o quanto nos descolamos da realidade, com um giro financeiro anual (em torno de US$ 600 trilhões) dez vezes maior que todo o produto bruto no mundo no mesmo espaço de tempo (pouco mais de US$ 60 trilhões). Se não nos dermos conta dessa insustentabilidade, razão terá o índio Marcos Terena quando diz: "Vocês (os não índios) são uma cultura que não deu certo".

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Governo quer Incra enxuto e com menos poder

Ideia é fazer uma reforma na autarquia, vista como um 'Estado dentro do Estado'; mudanças esvaziariam o Ministério do Desenvolvimento Agrário

02 de novembro de 2011 | 3h 04


O governo está costurando aos poucos uma proposta de reforma no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Uma das principais metas do projeto é reduzir o poder da autarquia. Indiretamente, a medida deve provocar o esvaziamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário, ao qual é vinculado o instituto.

Encarregado de levar adiante a reforma agrária, hoje o Incra tem poderes e recursos para comprar terras, assentar famílias, construir moradias nos assentamentos, abrir e manter estradas em áreas rurais, implantar agroindústrias, financiar programas educacionais, contratar e prestar assistência técnica e outros serviços. São tantas atividades que em Brasília costuma-se dizer que se trata de um Estado dentro do Estado.

O objetivo do governo é enxugar essa máquina e torná-la mais especializada e eficiente. Uma das primeiras iniciativas deve ser a transferência para o programa Minha Casa, Minha Vida, da Caixa Econômica Federal, da tarefa de construir habitações nos assentamentos rurais. Livres de visitas a assentamentos para acompanhar a construção de casas, os técnicos do instituto poderiam se dedicar mais à reforma agrária.

Líderes do Movimento dos Sem-Terra (MST) consultados pelo Estado sobre essa iniciativa na área habitacional disseram apoiar a mudança. Entre outras coisas porque o valor destinado à construção de casas no programa da Caixa é maior do que o do Incra. Passaria de R$ 15 mil para R$ 25 mil.

Prazo. Há outro ponto na pauta do Planalto, porém, que deve enfrentar resistência do movimento. É o que estabelece um prazo para a execução da reforma no País. Pela proposta, ela deixaria de ser um processo permanente, sem prazo para acabar, como acontece hoje.

Após o final do prazo, o Incra ficaria voltado uma outra atividade, considerada essencial, descrita no decreto de sua criação, em julho de 1970, em plena ditadura militar: a manutenção do cadastro nacional de imóveis rurais e administração das terras públicas da União.

As mudanças deverão ser baseadas num diagnóstico sobre os principais problemas do Incra preparado pelo seu presidente, o agrônomo e matemático Celso Lacerda. Antes de ser chamado pela presidente Dilma Rousseff, ele atuou em cooperativas e programas de assistência técnica, além de ter ocupado o cargo de superintendente do Incra do Paraná durante o governo Lula. Segundo funcionários da instituição, ele conhece bem os gargalos da reforma agrária.

Lacerda foi escolhido com a missão de dar uma direção mais técnica e menos politizada ao Incra. A reforma do instituto seria um dos principais passos nesta direção. Em conversas sobre o assunto, ele tem dito que a mudança também levaria a um fortalecimento dos atuais quadros técnicos do instituto.

From: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,governo-quer-incra-enxuto-e-com-menos-poder-,793592,0.htm?p=1

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A confusão urbana, acima e abaixo do solo

Washington Novaes, jornalista. O Estado de S.Paulo

Quem se dá ao trabalho de acompanhar as notícias é provável que se impressione com a desarticulação entre várias políticas que regem a vida dos cidadãos nas maiores cidades - cada uma atira para um lado e, somadas, provocam complicadas e indesejáveis consequências na vida das pessoas. É o caso, entre muitas, das políticas de transportes, construção de veículos, expansão urbana, combustíveis, controle da poluição do ar, manutenção de infraestruturas urbanas.

Pode-se começar pela área dos transportes. Segundo este jornal (20/10), só na primeira quinzena de outubro foram fabricados no País mais de 150 mil veículos e se espera para o mês todo que as vendas atinjam patamar semelhante ao de setembro (311,6 mil veículos); no ano, com aumento de 7% em relação a igual período de 2010, já são 2,83 milhões, mais 7%, nível recorde. A frota nacional já está além de 35 milhões. Só em São Paulo, mais de 7 milhões. E até 2015 novas fábricas e ampliação das atuais deverão acrescentar mais 2 milhões de veículos à produção anual, que hoje está em torno de 4,3 milhões, incluindo também caminhões, ônibus e comerciais leves. Ótimo para a economia, pensarão muitos. Mas que acontecerá nas cidades?
São Paulo, por exemplo, já tem um dos mais baixos índices de mobilidade urbana no País (Mobilidade Brasil, 14/10), pior que os de todas as cidades maiores, onde as questões já são graves. Uma das razões decorre de a frota de coletivos estar estagnada há anos, enquanto a população aumenta e sobe o número de automóveis. No Recife, onde a frota de veículos se aproxima de 1 milhão, um deslocamento de 22 quilômetros em transporte público leva duas horas. Em Goiânia (O Popular, 15/10), a velocidade média da frota de ônibus caiu 28% em três anos, para menos de 20 quilômetros por hora. Nesse período, a frota de automóveis e motocicletas na cidade cresceu 75%. E ainda há incentivos fiscais para a compra de veículos novos.
Também contribui para o drama dos transportes o fato de a rede ferroviária nacional responder hoje por menos de 30% do transporte de cargas - inclusive por causa do sucateamento a que foi submetida em parte, após as privatizações. Com isso é cada vez maior o transporte por caminhões, ajudando a atravancar o trânsito das cidades: em nove meses deste ano, o licenciamento desse tipo de veículo aumentou 15,9%, segundo a Anfavea (Estado, 16/10), e chegou a quase 130 mil unidades. Mas a frota, na média, ainda é muito antiga (média de 22 anos) e contribui fortemente, por esse motivo, para a poluição do ar urbano.
Quem acha que motos são um complicador no trânsito se assusta ao saber que suas vendas superarão as de automóveis em 2012 e que em dez anos haverá mais motos que carros nas ruas, segundo o Ipea (Estado, 26/5). Lembrando que uma moto pode emitir até 40 vezes mais poluentes que um automóvel e que esses veículos já são responsáveis pelo maior número de mortes em acidentes.
Nem mesmo caminhos legais são aproveitados para enfrentar questões da mobilidade e da poluição. Na cidade de São Paulo, 30% a 35% dos carros e motos estão em situação irregular e poderiam ser retirados das ruas. Mas apenas 100 mil estão apreendidos. O vice-governador Afif Domingos, segundo quem "a mobilidade em São Paulo é zero" (Estado, 21/2), promete que em dois anos serão implantadas "desmontadoras" para enfrentar o problema. Como? E até lá?
Chega-se aos combustíveis, com a redução do etanol na mistura com gasolina de 25% para 20% - o que aumentará a poluição do ar -, mesmo com o Brasil agora importando etanol de milho dos EUA. Nossos produtores de etanol responsabilizam por isso a política de energia, que mantém o preço do seu produto vinculado ao da gasolina, mantido em níveis considerados irreais para não estimular a inflação. Mas continuamos exportando etanol para a Califórnia (Estado, 20/10) e importando de outras áreas norte-americanas. E mantendo o Cerrado excluído das áreas onde não pode haver expansão da cana-de-açúcar. Com isso o bioma já perdeu a vegetação originária em metade de sua área e contribui com parcela relevante das emissões brasileiras que ajudam a intensificar mudanças climáticas.
Por aí entra mais um ângulo das relações com as políticas urbanas. Segundo a Cetesb, 11 de 14 regiões da cidade apresentaram padrões inadequados de poluição, principalmente material particulado. Na Grande São Paulo, a qualidade do ar foi considerada imprópria em 259 dias de um ano. As emissões de dióxido de carbono entre 1990 e 2008 no Estado de São Paulo aumentaram 58% (Estado, 26/4), passaram de 60,7 milhões de toneladas anuais para 95,7 milhões, e os veículos respondem por quase metade do aumento. Em um único ano os veículos emitiram 14,1 milhões de toneladas, mais que a indústria (13,4 milhões de toneladas). Registraram-se índices 392% mais altos que os recomendados pela Organização Mundial da Saúde (Estado, 1.º/8). No ano que vem entra em vigor resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente que pretende baixar o nível tolerável de enxofre para um décimo do atual. Será cumprida?
Nossas grandes cidades, em meio a tudo isso, ainda vivem atormentadas por enchentes, que também nos levam ao andar de baixo e aos problemas que ali estão. Este jornal informou (16/10) que sob as calçadas paulistanas estão 115 mil quilômetros de tubulações (quase três vezes e meia a volta à Terra), incluindo redes de água e esgotos (34 mil km), 4.700 km da rede de gás, 38 mil km da rede telefônica, 2,7 mil da energia elétrica, 1,5 mil das telecomunicações, etc. Dividem o espaço com 9,2 milhões de passageiros que usam o transporte subterrâneo. Cáspite!
Muitos administradores repetem (sem dar consequência) a frase dita há muito tempo por um sociólogo: o Estado tornou-se pequeno para resolver os megaproblemas de hoje; e, grande demais, não consegue chegar perto das questões que afligem o cidadão comum no seu cotidiano. É isso aí.

from: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-confusao-urbana-acima-e-abaixo-do-solo-,791643,0.htm

Pacote agiliza licenciamento ambiental e reduz custo de obras

Sete portarias publicadas na edição desta sexta-feira, 28, do Diário Oficial permitem regularizar obras anteriores a 1983, o que facilitará a execução de melhoramentos nas rodovias e portos
28 de outubro de 2011 | 6h 05
 
Marta Salomon, O ESTADO DE S. PAULO

BRASÍLIA - Um conjunto de sete portarias publicadas na edição de hoje do Diário Oficial vai reduzir o custo dos empreendedores com compensação de impacto de grandes obras. O licenciamento ambiental não poderá mais impor condicionantes à liberação de empreendimentos que não tenham relação direta com o impacto da obra. Um exemplo citado pela cúpula da área ambiental do governo foi a exigência de tratamento dentário a populações quilombolas próximas à passagem de uma rodovia, exigida em licença recente.

"Ficam afastadas as condicionantes que não têm nada a ver com os impactos dos empreendimentos", disse o presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Curt Trennepohl, sobre um dos pontos do pacote que agilizará o processo de licenciamento, principalmente das linhas de transmissão, rodovias, portos e do setor de petróleo e gás.

O governo prevê que, nos próximos 10 anos, crescerá a demanda pelo licenciamento ambiental de empreendimentos no país. Serão mais 31,5 mil megawatts de novas hidrelétricas, 32 mil quilômetros de linhas de transmissão, 16 mil quilômetros de rodovias e 32 mil quilômetros de ferrovias já previstos, além do licenciamento da exploração de petróleo no pré-sal.

"As portarias vão acelerar o licenciamento, sem perder a qualidade. A agilização virá de um processo mais eficiente", insistiu Trennepohl, que resiste a expressões como "facilitar", "apressar" ou mesmo "flexibilizar" as regras de avaliação do impacto de empreendimentos de infraestrutura. São sete as portarias publicadas hoje.

Um dos mecanismos que ajudará nas novas licenças é o limite de pedidos de complementação de estudos de impacto ambiental. A partir de amanhã, o órgão ambiental federal só poderá pedir informações complementares uma única vez, e os empreendedores deverão responder aos pedidos de uma única vez. Se a resposta não for considerada suficiente para esclarecer dúvidas, a licença será recusada.

Um ajuste importante é o estabelecimento de prazo de 60 dias para órgãos como a Fundação Nacional do Índio (Funai) do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) se manifestarem sobre os estudos de impacto ambiental. "Na prática, não se fazia valer nenhum prazo até aqui", observou Trennepohl.

Consultorias - Outra novidade é a possibilidade de o Ibama validar informações contidas num determinado estudo para que outros empreendimentos não precisem repetir estudos. "Quem não vai gostar são as consultorias", disse Marília Marreco, assessora da ministra do Meio Ambiente.

Na área de petróleo e gás e no licenciamento de linhas de transmissão, as portarias estabelecerão procedimentos diferentes por potencial de impacto. Nem todos os empreendimentos de linhas de transmissão, por exemplo, exigirão estudos de impacto ambiental. O licenciamento de poços de petróleo será feito por blocos.

Antes de 1983 - O pacote de portarias também prevê a regularização de empreendimentos anteriores a 1983, ano da regulamentação da lei com regras para o licenciamento ambiental. O país tem 55 mil quilômetros de rodovias não licenciadas e mais 40 portos em funcionamento sem autorização prévia, segundo dados do Ibama.

A regularização facilitará obras de melhoramento das rodovias e nos portos. O mecanismo não alcançará o asfaltamento de estradas como a Transamazônica e a polêmica BR-319, que liga Porto Velho (RO) a Manaus.

from: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,pacote-agiliza-licenciamento-ambiental-e-reduz-custo-de-obras,791673,0.htm

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Preço de imóveis novos em SP cresce 85% desde 2009, aponta Ibope

Na capital paulista, medro quadrado sai por um preço médio de pouco mais R$ 6 mil
26 de outubro de 2011 | 11h 46
Fabiana Holtz, da Agência Estado
SÃO PAULO - O preço médio do metro quadrado de imóveis novos em São Paulo cresceu 85% desde 2009, segundo pesquisa divulgada pela Ibope Inteligência. A pesquisa, que está em sua terceira edição, incluiu outras três capitais: Rio, Recife e Porto Alegre. Entre abril e outubro, a variação na capital paulista foi de 14%, com o índice médio de preço do metro quadrado passando de 162 pontos para 185 pontos.
Em valores atualizados, o preço médio do metro quadrado em São Paulo ficou em R$ 6.019. No mercado de usados, a variação na capital paulista foi de 11%, de 146 pontos para 162 pontos.
No Rio de Janeiro o índice médio de preço de imóveis novos avançou 18% entre abril e outubro, para 179 pontos. A mesma variação foi apurada em Recife, cujo índice ficou em 118 pontos.
Em valores atualizados, o preço médio do metro quadrado no Rio ficou em R$ 6.000 e em Recife chegou a R$ 4.074. No segmento de usados a capital carioca registrou alta de 19% e Recife expansão de 20%.
Em Porto Alegre a alta do metro quadrado para imóveis novos subiu 11% entre abril e outubro, para 163 pontos. Em valores atualizados, o preço médio do metro quadrado na capital gaúcha ficou em R$ 4.501. No segmento de usados, a cidade registrou alta de 8% e Recife expansão de 20%.
"Acredito que a tendência é de desaceleração no médio prazo, mas tudo vai depender da economia", afirmou Antônio Carlos Ruótolo, diretor de geonegócios do Ibope Inteligência, ao ressaltar que não vê, por enquanto, tendência de acomodação.

from: http://economia.estadao.com.br/noticias/economia,preco-de-imoveis-novos-em-sp-cresce-85-desde-2009-aponta-ibope,89745,0.htm

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

'Sustentável hoje quer dizer tudo e nada'

Rótulos da sustentabilidade foram apropriados por departamentos de marketing das empresas

26 de outubro de 2011 | 3h 07

SIMONE IWASSO - O Estado de S.Paulo

Com a experiência de quem frequenta há mais de 15 anos a presidência de grandes empresas e a periferia de grandes cidades para elaborar e implementar projetos de sustentabilidade e responsabilidade social, Heloísa Melillo afirma que um dos grandes empecilhos para a adoção de ações transformadoras na área é a exigência das corporações de um retorno rápido e de grande visibilidade.

Como consequência, o rótulo "sustentável" se transformou mais em um recurso usado à exaustão pelos departamentos de marketing de empresas do que conceito norteador de propostas. "Hoje tenho até medo de falar em sustentabilidade, porque é tudo e ao mesmo tempo é complemente nada."

Pedagoga de formação, com atuação nas Secretarias de Educação e Cultura de São Paulo, Heloisa fundou em 1994 uma empresa que se dedica a desenhar e colocar em prática projetos sustentáveis para empresas, que vão da área de energia à cultura.

O que é um projeto ou uma empresa sustentável?

Sustentável é a empresa que consegue tratar seus negócios pensando nas pessoas que estão trabalhando nele e nas pessoas que vão ser impactadas por ele. É a empresa que pensa em como desenvolver uma proposta de forma que este planeta esteja sendo cuidado e pensado e, ao mesmo tempo, como fazer com que esse projeto seja viabilizado. Pelo que vejo no mundo empresarial, essa é a parte mais complicada.

Por que é tão complicado?

O que vejo muitas vezes no mundo corporativo são empresas que têm dificuldades muito grande em trabalhar simultaneamente os três pilares que sustentam a ideia de sustentabilidade. Vejo empresas que cuidam muito bem do meio ambiente, que têm dezenas de pessoas pensando, elaborando políticas de preservação, de proteção, de crédito de carbono, de como fazer o descarte correto de resíduos. Só que essas mesmas empresas, super preocupadas com seu cliente, com seu consumidor, também adotam políticas bastante leoninas com seus funcionários e com os seus fornecedores. Uma empresa para que seja sustentável tem de entender primeiro o que é cadeia de valor no seu sentido mais amplo, e como isso se traduz no preço e no custo dos seus produtos e serviços. E, como esses produtos e serviços vão trabalhar a favor do meio ambiente, o que é diferente de pensar em como não vão atrapalhar. Já passamos dessa fase de apenas não prejudicar. Somente no momento em que isso acontecer, essa empresa pode dizer que tem uma política de sustentabilidade.

As empresas ainda não entenderam o conceito ou usam a sustentabilidade como um braço do marketing?

O conceito da sustentabilidade surgiu como contraponto ou no lugar da responsabilidade social. Ele ganhou força no mesmo momento que se popularizou no mundo o debate sobre o aquecimento global, com as conferências e as publicações de cientistas. Então ele ganha força dentro do contexto da discussão em torno das mudanças climáticas. Esse é um dos problemas que faz com que o conceito da sustentabilidade, em muitas empresas, esteja focado apenas na área de meio ambiente. Conheci uma empresa que tinha dois departamentos: o de sustentabilidade e o de responsabilidade social. A de sustentabilidade cuidava das coisas verdes e o de responsabilidade social cuidava dos projetos.

Por que essa divisão?

São conceitos muito recentes. Estamos falando de, no máximo, 30 anos. Executivos atuais ainda foram educados para gerar lucro, entendido como resultado entre receita e despesa. Quando apareceu o conceito da sustentabilidade, muito do que eles aprenderam virou de ponta cabeça. Eles precisam absorver a ideia que uma série de itens que frequentavam a coluna dos custos passou a estar na coluna de investimentos. E não podemos esquecer que muitas empresas não estão nem um pouco preocupadas em entender o que é sustentabilidade, mas já entenderem muito bem que esse conceito pode realmente aumentar os lucros, não do jeito que a gente entende, mas como peça de marketing, de propaganda, de forma até vil. Hoje tenho até medo de falar em sustentabilidade, porque é tudo e, ao mesmo tempo, é complemente nada.

Como a gente consegue qualificar o debate em torno do tema?

O papel que os organismos nacionais e internacionais de controle exercem sobre as empresas é importante. Ethos, Gife, Akatu são exemplos de instituições que cobram algumas medidas de governança das empresas, que fazem com que elas tenham de avançar, querendo ou não querendo. Esses organismos ligados ao mundo econômico que empresários bem conhecem podem ser pontas de lança para avançar esse pensamento dentro das empresas. Estão fazendo debates, cursos, conferências para esse público corporativo. E também o papel das empresas que prestam serviço para essas corporações. Existem diversas consultorias que, de uma forma geral, são sérias, apesar de discordarem entre si em alguns pontos do que é sustentabilidade. Independentemente das divergências, elas prestam um serviço na medida em que colocam a sustentabilidade dentro do pensamento estratégico das empresas. Isso faz com que o tema saia do nível gerencial e assuma seu lugar na diretoria, nas presidências. Existem também as empresas que fazem projetos para essas empresas, como nós. Corporações começam a ter necessidade, até por cobrança dos reguladores, de começar a encontrar elementos que ajudam a separar o joio do trigo. Algumas empresas conseguem reconhecer as que estão alinhadas somente a uma política de comunicação e marketing e as que estão alinhadas a uma mudança profunda.

Quais os maiores empecilhos na hora de fazer um projeto com uma empresa?

Existem empresas cujo gerente ou executivo tem desejo grande de fazer alguma coisa de verdade. Desenhamos um projeto para aquilo que esse executivo pediu. Na hora de aprovar o custo desse projeto, dentro da empresa, aparecem os problemas. Sempre aparece o questionamento do custo, do tempo de retorno, do que a empresa vai ganhar com isso e como ela vai aparecer. Essas são as perguntas básicas que escutamos. E, em um projeto que trabalhe com sustentabilidade, esse reconhecimento demora. Ele é feito para as pessoas e as pessoas têm um tempo de transformação. Quando a gente conta esse tempo para a empresa, ela, de forma geral, diz que não tem esse tempo, que precisa de um projeto de maior visibilidade. Quando percebo isso, já procuro propor um projeto de marketing relacionado à causa que tenha em si capacidade de se transformar num projeto verdadeiro de responsabilidade social e sustentabilidade.

As empresas aceitam?

É um caminho que pressupõe uma separação entre a ação da comunidade e a área de comunicação e marketing que existe dentro da empresa. Quem nos chama para isso é o diretor de planejamento estratégico, que cuida da área institucional da empresa. Isso já muda até qual a função de quem nos contrata. Já chega com uma demanda. A gente tem muitos clientes cuja causa é o consumo consciente, muitos que trabalham com eficiência energética. Eles querem trabalhar isso de uma forma que as pessoas percebam qual a responsabilidade delas na difusão e no fomento de boas práticas em relação ao consumo consciente. É diferente daquela empresa que também nos chama porque quer cumprir uma meta estabelecida pela agência reguladora. Por essa razão sempre gera uma discussão dentro da empresa, que, para a gente, é positiva para o processo de educação.

Ao longo dos anos, essas resistências têm diminuído?
O que mais me encanta são aquelas empresas onde as pessoas querem fazer de verdade, e elas existem. O maior desencanto são aquelas que estudam muito, porque não falta no mercado MBA e pós-graduação que trata de sustentabilidade. E vemos um monte de empresa que paga para seus executivos fazerem os cursos, para que eles possam falar com mais amplitude sobre o tema e usar esses conceitos. Então, o que me encanta, como eu falei, são as empresas nas quais os executivos, tendo ou não feito esses cursos, acreditam de verdade que a empresa, apesar de privada, tem uma responsabilidade com o que é da sociedade, porque seu produto e seu serviço é colocado à disposição de todos.

from: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,sustentavel-hoje-quer-dizer-tudo-e-nada,790637,0.htm